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Ao Sétimo Não Descansaram

 

"Tralha" não é um objecto facilmente definível. Não tem um conceito tão óbvio quanto os seus antecessores (basta pensar em "Cor", "Lobos, Raposas e Coiotes", "Chorinho Feliz" ou mesmo "Undercovers", assente em versões de temas alheios), mas o simples facto de se apresentar, ainda que em sentido metafórico, como um amontoado de sons, ideias e coisas, podia remeter-nos para uma dimensão de quase interregno.

Uma espécie de marcar passo. Puro engano. Ao sétimo disco, contrariando o exemplo de Deus (que se diz ter descansado após seis dias a fazer céus e terra), Maria João e Mário Laginha não descansaram. Aproveitaram a embalagem dos seis anteriores da dupla (dos quais o primeiro, "Danças", de 1993, será o menos característico, por não ter ainda nenhuma composição assinada por Maria João) e construíram sobre as suas memórias, pessoais e musicais, novos trajectos que continuam a abrir portas ao futuro. Há laivos de jazz, de música oriental, cores africanas, ambiências levemente pop, vocalizos sem letra e vocalizos transformados em letra (em "Pés no chão" a cantora aventurou-se a registar pela primeira vez em texto aquela que é a sua linguagem de eleição, a onomatopeia), há Maria João e Mário Laginha, na respiração musical e criativa que é já sua imagem de marca.

De resto, o trabalho colectivo com os outros músicos (Mário Delgado, Alexandre Frazão, Miguel Ferreira, Yuri Daniel, Helge Norbakken) revela-se extremamente enriquecedor e muitas das canções parecem ter ganho aí o seu primeiro brilho. A produção e os arranjos, a cargo de Mário Laginha (com a colaboração de Maria João), primam de novo pelo bom gosto e pela elegância, conferindo ao disco o seu brilho final.

Todas os temas são novos, à excepção de "Mãos na parede", escrita para o CD duplo de homenagem a Carlos Paredes, e que ganha aqui nova leitura. A letra de "My skin" também já existia, mas apenas como tradução para inglês de uma canção em xangana incluída em "Cor"; mas as semelhanças ficam-se por aí, já que deu origem, em especial na música, a uma canção inteiramente nova. "Pequenininha" esteve para sair em "Undercovers" mas sobrou para "Tralha" e abraçou o seu espírito: é uma daquelas canções onde Maria João canta de voz ameninada e doce (lembram-se de "Bom Dia Benjamim"?) e onde a música, em suaves e cadenciadas ondas, se espraia como num sonho.

Mas é na ligação, musical e temática, entre "Parrots and lions", a abrir, e "Pés no chão", a fechar, que o disco encontra a sua chave e prova o seu equilíbrio: no primeiro a dupla expõe-se, no segundo explica-se. Ou será o contrário? Ouvir e concluir é, só por si, uma experiência obrigatória.

[ 8/10 ]

NP, in Público, 8/10/2004