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Novo jazz de Hollenbeck para grande orquestra

Também nas grandes orquestras, a tradição já não é o que era

Com o concerto realizado no sábado passado em Serralves pela Orquestra de Jazz de Matosinhos (OJM), interpretando a música do baterista e compositor norte-americano John Hollen- beck sob a direcção deste e com o cantor Theo Blekmann como solista convidado, o jazz português deu mais alguns passos decisivos para a sua maturidade e afirmação internacional.

Gostaria de começar por deixar clara, para completa informação do leitor, uma "declaração de interesses": o escriba de serviço é autor dos textos de apresentação que acompanham os projectos da OJM para 2007. Seria entretanto altamente injusto deixar passar em silêncio a qualidade demonstrada neste concerto por uma das nossas melhores big bands e seus convidados. Isto porque se sabia particularmente exigente a complexa modernidade de um jazz para orquestra que desafia qualquer comparação com o que tradicionalmente se conhece nesta área.

Na sábia e doseada ambivalência entre composição e improvisação, John Hollenbeck reforça claramente neste repertório aquela primeira componente da sua concepção jazzística, assim conferindo mais peso à actividade permanente do tutti pela quase imperceptível integração e disseminação dos solistas individuais no intenso conjunto de eventos musicais suscitado por cada peça.

Neste sentido, apesar de conjunturalmente se terem evidenciado em pequenas mas importantes intervenções solísticas alguns membros da OJM, é sobretudo a inteligente assimilação colectiva desta música de características novas, em meio da qual os vários naipes da orquestra se interpenetram e não tanto competem entre si, que importa salientar. Até mesmo a excepcional voz de Theo Bleckmann - neste contexto fazendo valer a polivalência estética da sua prática musical e uma mobilidade e extensão de tessitura, essenciais a esta música - é sobretudo tratada numa acepção instrumental e jamais como aquele elemento de espectacularidade mais próprio dos vocalistas de big band à maneira antiga.

Começando e encerrando o concerto, de forma quase inevitável, num ambiente de impressionante distensão e tranquilidade - com a beleza dos textos de Wallace Stevens e Hazrat Inayat Kahn a inspirarem (respectivamente) a grande música de The Bird with the Coppery, Kleen Claws e The Music of Life - John Hollenbeck propôs-nos, no resto da actuação da OJM, outras peças extraídas dos seus dois últimos opus discográficos, A Blessing e Joys & Desires, com particular relevo para esta última suite do mesmo nome.

A título meramente exemplificativo, impressionaram estes ouvidos com especial agrado o à-vontade e o balanço dinâmico com que toda a orquestra se entregou à cacofonia escrita e deixada ao "acaso" das três secções de Just Like Him, a intensidade caótica e aleatória do início de Jazz Envy, com André Fernandes reforçando depois o expressionismo electro-acústico da peça num rasgado solo de guitarra, e por último a disciplina do colectivo em Abstinence, com as várias entradas "fugadas" das linhas horizontais a confluírem para a fluente nitidez vertical com que foram pensadas.

MANUEL JORGE VELOSO