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A evolução tranquila de um talentoso guitarrista

Por Manuel Jorge Veloso, 10 de Dezembro de 2007

Uma das últimas crónicas que, neste derradeiro ano de colaboração, ainda escrevi para o Diário de Notícias teve como objecto uma apreciação crítica ao Festival de Jazz de Matosinhos, que acabara de se realizar, e que em dois dos seus concertos – por coincidência preenchidos com músicos portugueses: a Orquestra de Jazz de Matosinhos e o sexteto de Mário Franco – nos permitira ouvir como solistas convidados, respectivamente, Mark Turner e David Binney, dois dos mais originais e criativos saxofonistas do novo jazz norte-americano.

Escrevia eu, então, que se «a improvisação desenvolvida sob o clássico princípio tema-variações tinha ainda como dispositivo melódico essencial o jogo à volta dos acordes (e respectivas cifras) em que os temas se baseavam, já o tipo de improvisação que Mark Turner e David Binney hoje nos propõem é radicalmente diferente e gerador de uma muito mais intensa e ampla liberdade.»

E acrescentava: «agora, de uma forma interiorizada e pensada em alto grau, aquilo que nos é proposto, como complexo método de variação, é o apoio sempre transformável passo a passo (consoante a coincidência ou divergência vertical dos eventos melódicos e harmónicos) sobre escalas ou fragmentos de escalas que podem partir de notas fundamentais que compõem os acordes de base ou de notas que integram acordes “de passagem”, pelo que se tornam múltiplas e surpreendentes as direcções, desvios e atalhos de tais variações.»

É minha firme convicção que o guitarrista português André Fernandes se insere, também, no número destes músicos que trilham os novos caminhos do jazz actual e que entendem os princípios da improvisação de uma forma muito próxima da que procurei ensaiar naquela crónica e, por tabela, os princípios de composição das peças que constituem o ponto de partida para essas improvisações.

Vem isto a propósito do novo álbum Cubo gravado pelo jovem guitarrista – cujo lançamento se realiza amanhã (terça-feira, 11) no Hot Clube de Portugal e que, por estes dias, chegou ou está a chegar às lojas – dando-nos a ouvir o novo quarteto de André Fernandes.

Embora, numa primeira audição superficial, pudesse pensar-se que Cubo integra uma das várias linhas estéticas caras a Fernandes, ou seja, um ambiente que invoca ou se aproxima de certas correntes da música popular urbana – e algumas passagens de Not The Vibe ou Trinta Dias ajudam a que essa ideia faça caminho –, o certo é que, bem ouvidas as coisas, este novo álbum é mesmo um caso sério e deve, a meu ver, ser entendido como um desenvolvimento, pensado e aprofundado, da já muito interessante discografia do nosso talentoso guitarrista.

Para perceber como, também em música, as aparências iludem – uma ideia que, nos últimos tempos, tem passado com alguma insistência por este blog – é preciso ouvir atentamente Sal, uma peça central em todo o disco, e averiguar como as três secções que a compõem se conjugam para um resultado final de grande coerência e invenção.

Começando por uma série de arpejos que Mário Laginha nos deixa ouvir no piano e cuja permanente movimentação harmónica é altamente inspiradora, a guitarra e as vocalizações do próprio André Fernandes propõem-nos um tema calmo e cativante. Mas o modalismo que caracteriza a segunda secção iniciada aos 1m48s representa uma viragem bem inesperada, que transforma a sofisticação da primeira secção num desenvolvimento temático e rítmico mais «rude» e agitado. Aqui, a nota pedal que insistentemente Nelson Cascais produz no baixo-eléctrico é um elemento fundamental para o surgimento de vários acontecimentos musicais que interagem ou contrastam entre si.

Se, por um lado, os modos sobre os quais Fernandes deixa deslizar a sua fértil imaginação improvisativa vão mudando – um pouco ao sabor (parece sentir-se) de uma vontade colectiva –, a verdade é que aquela obsessiva nota pedal sublinhada por Cascais no baixo (mesmo mantendo-se no essencial inalterável) vai adquirindo uma função objectiva e subjectiva de carácter muito diverso; e os acordes esparsos e cristalinos que Laginha em tal ou tal momento deixa cair sobre tudo isto constituem, ainda, um ulterior e contrastante degrau auditivo.

Nesta catadupa de viragens e desvios, a terceira secção de Sal (surgida, à passagem dos 7m, de uma forma quase sub-reptícia) vem como que imprimir um radioso carácter português a esta interessantíssima peça e transmitir, pelas constantes deambulações harmónicas, um novo fôlego ao fantástico solo absoluto de Mário Laginha, imparável no crescendo gradual gerado a partir da região grave do instrumento. Até que, por volta dos 11m25s, uma última secção recapitula – no fundo, constituindo o seu digest – as ideias temáticas que ouvíramos na primeira secção, como se de uma revisão da matéria dada se tratasse.

Parecendo-me ser esta a peça-chave deste novo álbum de André Fernandes, outros momentos do disco, mais ou menos incisivos mas sempre brilhantes, vêm somar-se à generosa musicalidade de que o disco dá provas. Entre eles, a delicadeza da guitarra acústica no acompanhamento de Fernandes ao tema de Perto (enunciado «com um dedo» por Laginha) bem como a lógica interna do solo que inventa para a mesma peça, contrastam com as «curvas apertadas» e as métricas irregulares que moldam os temas complexos de Not The Vibe ou Dog Speak.

Já a admirável simplicidade do início em «pezinhos de lã», com Belzebu in the Building, tem imediata correspondência na forma pela qual o disco encerra, assim como quem não quer a coisa… com Foi-se Embora, uma canção que desliza num tempo mesmo pachola e composta (e cantada) por uma voz singular, a do desconcertante Tiago Maia (!).

Extremamente bem gravado e com notável mistura de Pete Rende, Cubo é, mais uma vez, para além da inventiva e empolgante participação de Mário Laginha, um veículo de afirmação (e criação) de outros dois indispensáveis talentos: os de Nelson Cascais e Alexandre Frazão, ambos dando largas ao seu tempo simultaneamente firme, impetuoso, sensível e delicado, em peças tão diferentes como Not The Vibe, Sal, Dog Speak ou Trinta Dias.