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Cristina Branco e a modernidade

Data: 19-04-2009

Já não é novidade para ninguém que Cristina Branco há já algum tempo se desviou dos caminhos mais ortodoxos do fado para emprestar a sua voz a outras canções e autores. Se em "Abril" já tinha feito uma homenagem sentida a Zeca Afonso, compositor capaz de saltar entre géneros sem nunca perder a espinha dorsal bem portuguesa e tradicional, no seu mais recente álbum, "Kronos", a intérprete foi buscar a nata da criação musical recente, artistas nas suas palavras «herdeiros» desse sentir do «Zeca», para compor aquele que figurará provavelmente como a casa de algumas das mais bem compostas melodias com carimbo luso deste ano. Sob o auspício do tempo, passam por "Kronos" nomes do jazz como Carlos Bica e Mário Laginha, a aura feminina de Amélia Muge, o rock de Rui Veloso e o classicismo do Maestro Vitorino de Almeida, lado a lado com as 'brincadeiras' da métrica de Sérgio Godinho e a história de José Mário Branco. Nomes como provas mais que dadas do sentimento português que mesmo não estando presentes no palco do Centro Cultural de Belém (Mário Laginha, Carlos Bica e Rui Veloso estavam sentados na plateia, de acordo com indicação da cantora), estiveram em todo o momento nas palavras e na voz de Cristina Branco e na irrepreensível musicalidade de Ricardo Dias, imparável no piano e nos arranjos que tanta vida dão aos temas de "Kronos", na maneira tão moderna com que o jovem Bernardo Couto maneja a guitarra portuguesa e na inesperada incursão da electricidade na guitarra de Mário Delgado.

Entre os 24 temas que se ouviram nesta noite chuvosa em Belém, passaram na íntegra as 14 canções de "Kronos". Desde a melancolia de 'Tango', à popularidade de 'Bomba Relógio' de Sérgio Godinho, passando pela estreia com um toque especial para Lisboa de 'Eléctrico Amarelo', escrito por Rui Veloso e Carlos Tê, dois homens do norte, todos apresentados com a humildade de quem sabe que acertou em cheio por Cristina Branco. Porque é a sua voz que traz todas estas composições para a cumplicidade imediata com um público que não resiste a segui-la de perto, enquanto tira o fado dos cais e das ruas escuras e o leva para um passeio cheio de cor, pela estrada do optimismo.

E é também Cristina Branco, a perfomer, que se aproxima do piano à laia de cabaret para cantar 'Este Sítio', bem junto ao compositor João Paulo Esteves da Silva ou que se mete com os outros músicos, conforme o pendor mais insinuante das letras. Também é curioso ver como o timbre da intérprete muda quando se chega mais perto do fado clássico, mundo que a viu nascer. Quando canta Amália Rodrigues em 'Ai, Maria' ou 'Formiga Bossa Nova'. Quando fecha os olhos para nos enredar na tristeza do Fado Menor de 'Os Teus Olhos São Dois Círios' ou quase pede palmas quando dedica à capital 'Maria Lisboa', a fechar o segundo encore e o espectáculo. O voo de "Kronos" só agora começou. O de Cristina Branco já vai bem longo e cada vez mais alto.

Rita Tristany